Fonte: ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL – Organizador: Lamartine Pereira DaCosta. Ed.SHAPE,RJ, 2006.

Autores: Andréa d’Aiuto e Antônio Carlos Bramante

Sports volunteers

The meaning of the word “volunteer” adopted by the Olympic Games of Barcelona was that of a person who makes an individual, altruistic commitment to collaborate, to the best of his/her abilities in the organization of the Olympic Games, carrying out the tasks assigned to him/her without receiving payment or rewards of any other nature (Moragas et al., 1999). 

Keeping this meaning as the central focus, this chapter does a historical review of volunteerism in Brazil, which starts with the religious movements of the 16th century reaching sports through clubs of European immigrants in the 19th century. The YMCA starts in Brazil in 1893 and introduces volunteerism. A few decades after that, volunteers helped in the Latin-American Olympic Games that took place in Rio de Janeiro in 1922, which had 8 participating countries and 186,000 spectators within a conception similar to the one used in today’s large sports events. The use of volunteers in Brazilian mega sports events evolved and reached prominence during the 1977 Campanha Esporte para Todos (Sport for All Campaign), which had 9,000 volunteers. In the decades of 1980 and 1990, non-sports volunteerism grew so much in Brazil that today there are 20 million volunteers (Brazil is the 5th country in the world in numbers of volunteers), 1% of the GNP and 1.2 million direct jobs. A survey done in 2002 estimated that Brazil had more than 540,000 volunteering institutions, including NGOs, foundations, civil associations and assistance units. Today the so-called third sector (companies that assume social responsibility for their own projects) experiences a great expansion in the country  around 9% of growth in 2002. The organization of the Pan-American Games that will take place in Rio de Janeiro in 2007 is getting ready to select and train 15,000 volunteers, anticipating the possibility of headquartering other mega-events such as the Olympic Games and the Soccer World Cup.

Origens: O primeiro registro de memória sobre trabalho voluntário no Brasil é pontuado apenas 43 anos depois da data do descobrimento por portugueses em 1500, quando foi fundada a primeira Santa Casa de Misericórdia (hospital de base comunitária) na então Vila de Santos, hoje, cidade de Santos, no litoral do estado de São Paulo (www.facaparte.org.br, 2004). Dando um grande salto na história do voluntariado no Brasil, deslocando-se para os acontecimentos do século XX, em 1908 instalava-se no país a Cruz Vermelha, seguida do Movimento de Escoteiros em 1910, ambos com o objetivo de ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião. Mas somente em 1935, foi promulgada a Lei de Declaração de Utilidade Pública, para regular a colaboração do Estado com as instituições filantrópicas as quais eram (e continuam sendo) administradas por grupos voluntários. Ainda na primeira metade do século passado (1942), o então Presidente da República, Getúlio Vargas, criou a Legião Brasileira de Assistência LBA, voltada, essencialmente para atender, em caráter de emergência, famílias em situação de extrema necessidade. A luta por uma sociedade mais inclusiva em relação aos portadores de deficiência teve como instituição pioneira a Associação de Pais e Amigos do Excepcional APAE, a qual, desde 1961 até aos dias presentes, vem trabalhando em todos os Estados brasileiros, atuando com um grande número de voluntários. Outro projeto envolvendo voluntários, de grande repercussão nacional e internacional, criado em 1983, é a Pastoral da Criança, sob a chancela da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Com o slogan para que todas as crianças tenham vida, o objetivo desse grupo, ligado à igreja católica, é atuar nas áreas da saúde, nutrição e educação, desde o ventre materno até aos cinco anos de idade. Essa ação é hoje realizada em mais de 30 mil comunidades brasileiras, envolvendo 133 mil voluntários (90% mulheres). Com relação à juventude, muito provavelmente foi o Projeto Rondon, criado em 1967, que revelou o grande potencial do voluntariado no país referido à faixa etária jovem. Esse projeto governamental tinha por objetivo levar universitários em férias para as regiões mais longínquas do país, realizando um trabalho interdisciplinar no atendimento das necessidades básicas da população de inúmeros municípios brasileiros em situação de grande carência. A crise econômica mundial dos anos de 1970 repercutiu diretamente no aporte de recursos do governo federal brasileiro para projetos sociais. Essa situação foi se agravando na crise econômica nacional dos anos de 1980 e, na década de 1990, a iniciativa voluntária começou a buscar, com maior intensidade, parcerias com a classe empresarial, expandindo então o chamado Terceiro Setor no Brasil.

Contudo, apesar do entusiasmo com o poder do renovado setor, houve convivência com o primeiro (o governo) e o segundo (o mercado). Assim, entre 1997 e 2000, o número de voluntários das empresas vencedoras do Prêmio Bem Eficiente (organizado pela Kanitz & Associados) aumentou em 37%. Já o dispêndio médio por beneficiado evoluiu 46%, sendo que as próprias entidades cresceram em média 23% (Polo Henriques, 2002). Ainda se cogitando de responsabilidade social das empresas brasileiras, em junho de 1998, quando foi criado o Instituto Ethos de Responsabilidade Social, em São Paulo-SP, apenas 11 empresas encamparam a idéia e se associaram; um ano depois, as associadas somavam 138, e em 2002, quando o Ethos completou quatro anos, 600 empresas formavam o quadro associativo, representando 30% do Produto Interno Bruto do país (Eboli, 2002). Em 1993, o sociólogo Herbert de Souza criou a Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria e pela Vida, visando estabelecer um processo de organização da sociedade, com o objetivo de combater a fome. No primeiro ano de funcionamento, de 300 comitês locais, passou para mais de 5 mil em 1994, todos conduzidos por voluntários. Dez anos depois de sua fundação, o atual governo brasileiro lançou seu maior projeto na área social, Fome Zero, repetindo a emergência baseada na solidariedade humana (consubstanciada, em grande parte, na ação voluntária da sociedade). Assim dispostos, estes fatos de memória sugerem que criar um elo de pertencimento na ação voluntária das pessoas, calcada na solidariedade humana, apresenta-se como uma grande causa num país repleto de injustiças sociais. De qualquer modo, segundo o Centro de Voluntariado de São Paulo, hoje há cerca de 20 milhões de brasileiros engajados em atividades voluntárias (Éboli, 2002). O campo das atividades físico-esportivas apresenta-se então, com base em sua história, como uma arena privilegiada para que a associação entre reclamos sociais e voluntários se estabeleça, quer por filantropia ou para o desenvolvimento sócio-cultural do país.

Definições: De acordo com o glossário dos Jogos Olímpicos de Barcelona  1992, o voluntário é uma pessoa que assume um compromisso individual e altruístico para colaborar com a melhorde suas habilidades na organização dos Jogos Olímpicos, cumprindo tarefas designadas a ele ou a ela sem recebimento de pagamento ou recompensa de qualquer outra natureza (Moragas, Moreno e Peniagua, 1999). Já o Olympic Games Terminology (2004), documento oficial do COI, é mais operacional ao definir “voluntários” (p. 28), considerando eles/elas como membros não remunerados do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos-COJO, que são gerenciados pelo COJO, deixando subentendida a condição altruísta (amor ao próximo, abnegado e desinteressado) da função. De fato, a atitude de altruísmo é parte essencial do espírito original da prática esportiva do século XIX na Europa incluindo os Jogos Olímpicos, que posteriormente agregou valores materiais, pecuniários e profissionais de modo progressivo e em âmbito mundial. No Brasil, o trabalho voluntário começou a aparecer através dos clubes de imigrantes europeus de sentido comunitário e por vezes assistencial, a partir da primeira metade do século XIX. Estas instituições na origem refletiram a busca de identidade local, grupal e étnica – sobretudo as de raízes alemãs e italianas – que se reproduziu posteriormente entre imigrantes israelitas, libaneses,japoneses etc, como também nos próprios brasileiros, portugueses  e espanhóis já no século XX. Como tais, os primeiros clubes brasileiros foram recreativos e esportivos propiciando a atuação de indivíduos envolvidos e motivados que se engajavam em funções internas do clube, gerando um voluntariado espontâneo, mesmo em localidades pobres. Neste particular, há que distinguir os clubes dos ingleses que se tornaram seletivos e aristocráticos, criando um modelo de associação esportiva que deu origem aos clubes brasileiros de elite nas grandes cidades, Rio de Janeiro e São Paulo em especial. De qualquer modo, o clube brasileiro, quer comunitário ou de elite, pobre ou rico, tornou-se um fato social importante no país até meados do século XX (ver seção deste Atlas dedicada aos clubes). Contudo, apesar das mudanças qualitativas e quantitativas de grande expressão, o voluntariado tem tido maior destaque na atuação junto a clubes social-recreativos, embora fique evidente a sua participação em outras esferas da administração esportiva em termos de gestão, como no exemplo das ligas e federações esportivas (ver Situação atual apontada mais à frente).

Além disso, nas últimas décadas, o país, no âmbito da sociedade, reformulou o sentido original do voluntariado religioso e descobriu o trabalho voluntário social, que tem se desenvolvido em grande porte e engajamento nas questões comunitárias e de solidariedade. Já no campo dos grandes eventos esportivos à feição dos Jogos Olímpicos, Pan-Americanos etc, o voluntariado é um fenômeno mais recente no país, com intervenções episódicas e nem sempre registrado e/ou divulgado na literatura especializada.

Este trajeto entre sentidos diferentes de voluntariado esportivo torna-se mais claro diante do conceito atual das Nações Unidas, entidade para a qual o voluntário é o jovem ou adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social ou de outros campos…

Assim sendo, pretende-se que o voluntário no esporte ao ser focalizado, obrigatoriamente não se pode deixar de lado a conotação social da função, pois em qualquer âmbito de atuação deste indivíduo, sua ação denota ato espontâneo, oriundo de vontade própria, através de motivação individual, interesses comunitários, sociais e de solidariedade. O indivíduo que pretende ou atua como voluntário seja nos níveis assistenciais ou esportivos é um cidadão participativo, ciente da sua importância e responsabilidade, comprometida com uma causa, que colabora doando seu tempo, suas habilidades e características a favor de um grupo, da sua comunidade ou do seu país. Quando se trata de esporte, sua participação é fundamental e estratégica, e sua atuação tem uma abrangência diversificada de acordo com as especificidades técnicas e operacionais na realização de cada empreendimento. Isto posto, segue-se uma exposição de fatos de memória sobre o voluntariado esportivo no contexto histórico da expansão da responsabilidade social no Brasil e do desenvolvimento deste tipo de protagonismo social no exterior e de acordo com experiências pioneiras nacionais.

1893-1902: Início das ações de implantação da Associação Cristã de Moços-ACM no Brasil, criando uma sede no Rio de Janeiro – RJ em 1893, e outra na cidade de São Paulo em 1902. Desde seus empreendimentos pioneiros e ao se ampliar para outras regiões do país, a ACM se apoiou em voluntários e em campanhas de mobilização de suporte financeiro, o que incluía formação religiosa, de cidadania e de práticas esportivas. Neste particular, até a presente data, as ACMs no país continuam a adotar o voluntariado no esporte e na Educação Física, contando em 2002 com 5080 voluntários e 2146 profissionais, para a tender a 186 mil associados e realizar neste ano um total de 1.872.000 atendimentos.

1906-1910: As feiras internacionais de amostra de produtos de comércio, indústria e agricultura chegam ao Brasil neste período, como a Feira Internacional de Porto Alegre, realizada nesta cidade do RS em 1906, e a feira internacional do Rio de Janeiro de 1908, realizada na então capital da República, em comemoração ao Centenário da Abertura dos Portos. Nesta fase, as feiras já eram consideradas grandes eventos resguardando as devidas proporções da época. No primeiro caso, a atividade esportiva mostrada na Feira foi o ciclismo e no segundo, o então popular esporte de patins. Embora estas atividades esportivas e recreativas já estivessem relacionadas aos mega-eventos à época não há registro da participação de voluntários do setor esportivos como ocorria nos eventos comunitários (clubes esportivos e recreativos). Também em 1908 instalava-se no país a Cruz Vermelha, seguida do Movimento de Escoteiros em 1910, ambos de operação típica com voluntariado.

1917: A ACM de SP dá início à organização de corridas de rua na cidade de São Paulo, contando então com participação maciça, incluindo voluntários dentro das tradições históricasdaquela entidade.

1919: Cria-se no Brasil, o movimento das Bandeirantes, o escotismo feminino, originado na Inglaterra em 1909. Este movimento teve seu auge no Brasil nas décadas de 1940 e 1950.

1922: Feira Internacional de 1922, Rio de Janeiro-RJ. Hoje se sabe que este evento foi cultural e esportivo além de exposição d e produtos. Na parte esportiva houve três grandes eventos, sendo um deles os Jogos Olímpicos Latino-Americanos envolvendo 8 países e 6 modalidades esportivas, contabilizando ao final 186.000 expectadores (ver capítulo sobre o evento neste Atlas). No âmbito popular, a Feira promoveu uma Corrida Rústica na Estrada de acesso ao Corcovado com grande sucesso em participação. Embora haja características de mega-evento esportivo nesta promoção, também não há registros sobre a participação de voluntários em que pese ser o setor esportivo nacional caracteristicamente comunitário à época, sem intervenções governamentais. Aparentemente, o apoio às competições esportivas foi feito pelo Exército Brasileiro desde que se tratava de instituição sempre citada nos noticiários sobre a Feira nos jornais. Os clubes que cederam suas instalações  com o Fluminense F.C. à frente  também forneceram apoio às competições, explicando a composição dos suportes aos Jogos. A ACM forneceu oficialmente os meios de gestão dos Jogos, isto é seus Secretários, instrutores e voluntários. Em 15 de dezembro deste mesmo ano (a oficialização da fundação aconteceu em 28 de fevereiro de 1923), foi fundado no Brasil o Rotary, clube de prestação de serviços que conta hoje com 2.302 clubes no país (ocupando a 3ª posição mundial), envolvendo mais de 53.000 voluntários (ocupando a 5ª posição mundial).

1926: Recreação Pública em Porto Alegre-RS: início provável de eventos recreativos e de atividades físicas de grande número de participantes, posteriormente desdobrados em seu modelo em algumas partes do país. A organização e a gestão foram feitas por funcionários da Prefeitura local. Eventos similares ao de Porto Alegre, apareceram nos anos seguintes destacando-se: 1926- Corrida de Rua (São Paulo); 1932- Colônia de Férias (Rio de Janeiro); 1947- Ruas de Recreio (Rio de Janeiro), com introdução de patrocínios e divulgação nos meios de comunicação; 1969-Iniciam-se as promoções comunitárias de recreação e lazer em Itapira-SP e cidade de São Paulo e Rio de Janeiro; no ano de 1977 em Sorocaba-SP; 1975-  Mexa-se, a primeira grande campanha esportiva de âmbito nacional. Estes eventos ocorreram com apoio  explícito de voluntários, mas são desconhecidos preliminares e impactos derivados deste tipo de procedimento.

1935 – Foi promulgada a Lei de Declaração de Utilidade Pública no Brasil, para regular a colaboração do Estado com as instituições filantrópicas apoiadas por grupos voluntários.

1942 – Getúlio Vargas, então Presidente da República, criou a Legião Brasileira de Assistência LBA, que também se apoiou no serviço voluntário nos municípios em que se instalou.

1950 – Copa do Mundo de Futebol. Rio de Janeiro-RJ: mega-evento de grande significação no esporte nacional mas conduzido por pessoas contratadas e funcionários da Prefeitura do RJ.

1961 – Universíade. Porto Alegre, RS: mega-evento esportivo internacional em que, pela primeira vez no Brasil, registra-se a mobilização explícita de voluntários, especificamente para o apoio das delegações visitantes (ver Koch, R. Universíade 1961. UNISINOS, 2003, pp. 27  63). Somente para a recepção e acompanhamento das delegações houve 500 candidatas voluntárias. Como nos Jogos de 1922 no RJ, os clubes de Porto Alegre estavam à frente do suporte ao evento. Também neste ano, é fundada a Associação de Pais e Amigos do Excepcional-APAE, que se segmentou em todo o país atuando com voluntários.

1963 – Jogos Pan-Americanos. São Paulo-SP: aconteceram entre os dias 20 de abril a 5 de maio de 1963, contando com a presença de 1.665 atletas de 22 países em 17 modalidades esportivas. Os voluntários que atuaram nesta edição do Pan-Americano eram formados por pessoas conhecidas dos organizadores e o número foi inexpressivo. Suas atividades ficaram restritas a acompanhamento de delegações e algumas funções administrativas básicas. Militares e clubes participaram do apoio, repetindo o procedimento de 1922 nos Jogos Olímpicos Latino-Americanos do RJ.

1965 – Campeonato Mundial de Basquete. Rio de Janeiro- RJ: evento de grande impacto na sua cidade sede e em todo o Brasil devido o envolvimento da mídia, porém hoje desconhecido quanto aos aspectos organizacionais e gerenciais.

1967 – Criação do Projeto Rondon. Iniciativa de grande sucesso que demonstrou a existência de uma vocação espontânea para o voluntariado por parte dos jovens universitários brasileiros, incluindo eventos esportivos promovidos por graduandos de Escolas de Educação Física na década de 1970, como no caso dos campi avançados da Universidade Estadual do RJ (UERJ) no estado do Pará, e também em projetos de festivais de esporte do interior de Goiás, desenvolvido pela Faculdade Dom Bosco de Brasília (Mileno Tonisse, 2003).

1977 – Campanha Esporte para Todos (EPT): implantada no país a partir de 1977. Este movimento que contou com grande adesão e mobilização da população, prioridade para o sucesso do evento, teve também a adesão de 9.000 voluntários, surpreendendo os organizadores da iniciativa, gerando assim, o maior empreendimento de voluntariado no esporte que se tem notícia no país, até a presente data. A análise dos relatos, a descrição e características das atividades desenvolvidas pelos voluntários, pressupõe um modelo de mobilização, treinamento e adesão ainda cabível em muitos aspectos para as demandas atuais. Em resumo, os eventos de caráter esportivos informais  no estilo EPT -, contaram com a participação popular em larga escala, pois não tinham objetivos seletivos, promoviam a integração social, não incentivavam a discriminação em qualquer espécie, fomentavam o lazer, a saúde, o desenvolvimento comunitário, o civismo, a humanização das cidades, a valorização da natureza, a adesão à prática esportiva e ao esporte organizado (elementos do Decálogo da campanha). Além disso, os eventos eram adaptados aos recursos disponíveis a fim de facilitar a mobilização de todos os envolvidos, demonstrando a vocação do Brasil no esporte popular. Com essas características, valorizava-se o serviço comunitário, capaz de convocar indivíduos a apoiar as entidades públicas e privadas que participavam dessas ações, dando surgimento a voluntários engajados e participativos. Basicamente, o treinamento dos voluntários era feito por uma fita cassete distribuída em larga escala  e pela divulgação intensiva do decálogo do EPT.

1980 – Este ano marca o aparecimento do voluntariado como função chave dos Jogos Olímpicos. A ocorrência teve lugar nos Jogos Olímpicos de Inverno sediados em Lake Placid, EUA, quando praticamente todas as funções não diretivas foram ocupadas por 6.703 voluntários, redundando em excelentes resultados. Antes, nos Jogos de Verão e de Inverno, a expressão “voluntário” não aparece nos relatórios oficiais das Olimpíadas entre 1896 e 1908. Mas em Stockholm-1912 (Verão), os escoteiros passaram a figurar na organização, e mais tarde, em Cortina d’Ampezzo-1956 (Inverno), os militares. Mas em nenhum caso com o impacto de Lake Placid – 1980, que foi sucedido por crescente número de voluntários nos Jogos, alcançando 32.579 em Nagano-1998 (Inverno) e mais de 50 mil em Sydney-2000 (Verão) (Moragas et al., 1999).

1981 – Criação da Rede EPT com suporte básico de patrocínio local e de voluntários, mantendo o objetivo tradicional do EPT de oferta de atividades físicas recreativas de interesse comunitário. A participação deste voluntário, também denominado “agente”, iniciava-se com sua motivação pessoal, através das ações de divulgação do movimento (Fita K-7 e Decálogo). Os voluntários eram oriundos de entidades esportivas, funcionários de órgãos do governo, empresas, e na maioria dos casos, cidadãos interessados em trabalhar pelo esporte e por sua comunidade, independente da sua idade, raça, sexo ou condição econômica. Depois de motivado a atuar no trabalho voluntário, este indivíduo era informado dos detalhes e objetivos e participava de treinamento, que evidenciava como características principais a ação em grupo, a capacidade de influenciar pessoas e incentivar a comunidade a participar das atividades, atuando com liderança e espírito de cooperação. Portanto, a mobilização como estratégia fundamental do movimento EPT, começou com a busca de adesões tanto de pessoas como de entidades, como governos, instituições religiosas, clubes, estabelecimentos de ensino, escoteiros e bandeirantes, entre outros. Esta mobilização é o resultado da somatória divulgação + contato pessoal. O forte envolvimento dos primeiros voluntários foi capaz de disseminar um espírito de colaboração e captação das propostas do movimento EPT, além de identificar possíveis agentes, estimular sua adesão e participar dos treinamentos, através da troca de experiências. Já nesta fase percebera-se que o voluntariado esportivo “aberto” (fora dos clubes) era circulante, entrando e saindo do movimento de acordo com conveniências ou impossibilidades, gerando então mobilização permanente. A mobilização dos voluntários nos pequenos e médios municípios se deu por adesão das pessoas através de divulgação local (agentes estaduais, rádios locais, anúncios grátis nas TV e jornais etc.). Nas cidades de porte maior, a mobilização foi mais abrangente e aconteceu através de entidades que já atuavam nas áreas de esporte e lazer, como clubes, sindicatos, empresas, entre outros, além dos meios de comunicação. O treinamento oferecido aos voluntários foi o ponto forte para o sucesso do movimento EPT. As oportunidades de trocas de experiências, a propagação de informações e dicas, tinham como base um programa de rádio em cadeia nacional, envolvendo 800 emissoras sob coordenação da Rádio MEC (RJ), aos domingos pela manhã, além da Revista Comunidade Esportiva (distribuição gratuita via correio, com patrocínio), ambos desenvolvidos com a participação direta de voluntários. Havia ampla participação nos cursos e reuniões, com temas relevantes para sua atuação. Os voluntários faziam circular informações, trocavam experiências pessoais, prestavam depoimentos, propiciando a participação e reflexão de todos, e chegaram a divulgar um código de ética que servia como referencial de atuação local e comunitária.

A Rede EPT extinguiu-se em 1988, logo após a nova Constituição Federal aprovada neste ano, considerar as atividades esportivas não-formais como dever de Estado, ampliando assim a gestão de órgãos de governo no âmbito esportivo-recreativo.

1983 – Cria-se a Pastoral da Criança, sob a chancela da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, outro projeto envolvendo voluntários de modo maciço, de grande repercussão nacional e internacional, que atuou e continua a atuar nas áreas da saúde, nutrição e educação, de crianças até aos cinco anos de idade. Em 2003, esta entidade atendia 1 milhão de famílias e a cerca de 1,6 milhões de crianças em todo o país.

1993 – Neste ano, o sociólogo Herbert de Souza criou a Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria e pela Vida, visando estabelecer um processo de organização da sociedade com base em voluntários.

1995-2001 – Precedendo o Ano Internacional do Voluntariado, fixado pela ONU em 2001, três momentos merecem registros na história recente do voluntariado no Brasil: (1) em 1995, foi criado pelo Governo Federal o programa Comunidade Solidária, visando incentivar a participação da sociedade civil na resolução dos problemas sociais nacionais; (2) em 1997, foram criados os primeiros Centros de Voluntários do Brasil  uma espécie de banco de voluntários, mediando a relação oferta/demanda nesse campo e, finalmente, (3) em 1998, foi promulgada a Lei do Voluntariado (Lei nº 9.608) a qual dispôs sobre as condições do exercício do serviço voluntário, estabelecendo, inclusive, um termo de adesão. Essa Lei veio, de certa forma, revolucionar o serviço voluntário no Brasil, já que, em inúmeras ocasiões, ocorreram impasses de ordem jurídica, devido à má fé, tanto de quem se oferecia para executar tais serviços como daqueles que deles se utilizavam, sob o argumento dos direitos trabalhistas (ou da sua omissão). Por isso, na Lei em questão ficou estabelecido no Art.1º: Considera-se serviço voluntário, para fins desta lei, a atividade não remunerada prestada por pessoas físicas a entidade pública de qualquer natureza, ou a instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos, ou de assistência social, inclusive mutualidade.

1996 – Início do movimento Agita São Paulo que se estabeleceu e assim opera até hoje  com base em parcerias e voluntariado gerado a partir das instituições parceiras (ver capítulo Agita SP neste Atlas). Como no movimento EPT, o treinamento dos voluntários constitui a base dos Agita nos estados e municípios onde se encontram as instituições filiadas (empresas, escolas, hospitais, órgãos de governo etc). Este movimento tem desenvolvido com sucesso a promoção de saúde e do lazer por meio de atividades físicas, constituindo hoje um modelo internacional de boas práticas tanto na organização como nos modos de intervenção.

1999 – Realiza-se em Lausanne, na Suíça, um Simpósio Internacional de Voluntários e Movimento Olímpico, organizado pelo Comitê Olímpico Internacional-Museu Olímpico, no qual se avaliou o papel deste figurante cada vez mais importante ao longo da história dos Jogos Olímpicos. Uma síntese do conhecimento sobre o tema foi apresentada por Moragas, Moreno e Peniagua (1999), focalizando-se então as abordagens temáticas principais para o desenvolvimento do Voluntariado Olímpico: (1) treinamento operacional para o evento, de acordo com experiência, habilidades e/ou conhecimentos técnicos do voluntário, e de esclarecimento sobre os significados do esporte e do Olimpismo; (2) benefícios como retribuição adequada às tarefas estabelecidas, principalmente quanto às expectativas profissionais de cada voluntário (visibilidade profissional via banco de dados, diplomas, certificados etc); (3) reconhecimento público por meio de uniformes próprios, emblemas e outros símbolos; (4) valorização da função de voluntário sempre que possível de modo a criar gratificação pessoal.

2002 – Neste ano, segundo estudo de Lucianna Carvalho (2002), estimou-se que no Brasil havia um montante de entidades atuantes com voluntários superior a 540.000, incluindo organizações não governamentais (ONGs), fundações, associações civis e unidades assistenciais. Em relação à quantidade de empregos gerados, o setor respondia por 5% dos empregos no mundo e por 2,5% dos postos de trabalho no país. Considerando-se as organizações religiosas, a participação nos empregos do país subia para 3,2%: somente as 400 maiores entidades beneficentes no Brasil empregavam 86.894 pessoas em 2000 – excluindo os voluntários – segundo o Quinto Censo do Terceiro Setor, elaborado pela Kanitz & Associados. A mesma pesquisa indicou que essas 400 organizações ajudaram diretamente mais de 13,3 milhões de pessoas em 2000, um crescimento de 9% no indicador em relação ao número de pessoas atendidas no ano anterior. Já na distribuição de investimentos para as entidades brasileiras, 68% deles vêm de recursos próprios; 14% se originam do governo e 17,2% de doações, divididas em individuais (14%) e doações de empresas (3,2%). Este levantamento não definiu a parcela relativa ao esporte nas participações identificadas.

Situação atual Hoje, cerca de 14% da população brasileira está envolvida com trabalho voluntário na área social. Este número ainda é pequeno, comparando-se com a situação de países líderes na mobilização social e solidária: apenas 7% dos jovens brasileiros realizam trabalhos voluntários, contra 62% nos Estados Unidos. No Brasil, o campo das atividades físico-esportivas parece ser uma arena privilegiada para que se amplie essa participação altruística com base em sua tradição, a mais enraizada depois das obras religiosas. É mesmo plausível afirmar que as atividades físico esportivas no Brasil têm sua base estrutural e seu desenvolvimento gerencial calcados na ação de pessoas voluntárias. Um retrato da atualidade oferece elementos para essa assertiva se for considerada, para fins do inventário deste Atlas, a natureza da base administrativa das atividades físico-esportivas no país, ou seja, o poder público, a iniciativa privada e as chamas ONGs (ver adiante em destaque Esporte, voluntariado e Terceiro Setor). Em princípio, apesar de ser mais deficiente do que carente, o setor público intervém nas atividades físico-esportivas com vigor, principalmente pela alocação de espaços e equipamentos específicos para a sua prática e fruição, orientação profissional e (ainda que reduzida) dotação orçamentária. A capilarização da estrutura municipalista brasileira, com as suas quase 6.000 cidades, representa uma destacada infra-estrutura administrativa para as atividades físico esportivas em todo país, conforme consta do levantamento de instalações esportivas feito pelos CREFs, incluído neste Atlas. Por estes números  embora incompletos em termos geográficos entende-se que deve ser raro o município brasileiro que não possua mais do que um campo de futebol (mesmo que não oficial); grande maioria deles conta com quadra poli-esportivas; bom número tem suas quadras cobertas/ginásios de esportes; outros, piscinas e demais instalações. Além desta base municipal, tem crescido de maneira notável o número de pessoas que se apropriam dos mais distintos espaços públicos para realizar atividades físicas, sobretudo caminhadas (ver capítulo Cenário geral das atividades físicas neste Atlas). Se há essa infra-estrutura física instalada, a administração, animação e condução das atividades físico esportivas num município, sejam elas programadas ou espontâneas, cabe ao voluntário, ele ou ela. Isto porque grande parte dos municípios brasileiros conta hoje em sua estrutura administrativa com pelo menos um órgão responsável pela oferta de tais serviços à população. E nem sempre um profissional, particularmente o especializado, tem essa incumbência. O que se vê crescer nas cidades, até por força das Leis Orgânicas, é a implantação de Conselhos Municipais de Esportes (e lazer, em alguns casos) cuja atribuição, na maioria das vezes de caráter consultivo, é auxiliar na formulação de políticas públicas para esse setor, trabalho esse desenvolvido de maneira voluntária. Algo similar ocorre na esfera estadual e na própria União, com seus respectivos conselhos, cujos titulares nada percebem financeiramente, atuando, quase sempre, voluntariamente.

Se na perspectiva consultiva essa ação voluntária ocorre nos três níveis do poder público, na parte executiva, isso também ocorre por inúmeras motivações, sejam elas pela ausência de profissionais, por arranjos políticos, prestígio pessoal ou mesmo por economia. Muitos municípios ainda contam com sua Comissão Central de Esportes (CCE) ou denominações equivalentes, constituída por voluntários, na maioria das vezes ex-atletas, que acompanham as delegações das respectivas cidades nos Jogos Regionais e Abertos do Interior, como é o caso do estado de São Paulo. Em alguns municípios de maior porte essa estrutura de CCE evoluiu para a criação de Fundações Esportivas que também contam em seus quadros inúmeros voluntários. Algo semelhante pode ser dito com respeito à própria estrutura do esporte amador do país, ainda constituída, em grande parte, por ligas municipais, federações estaduais e confederações no âmbito nacional: seus líderes atuam sem vínculo empregatício, sendo na maioria das vezes dirigentes esportivos voluntários. Transitando-se do setor público para a iniciativa privada, o mesmo fenômeno se observa, vide os clubes social-recreativos: o Conselho Diretor de um clube é formado por voluntários; o Conselho Fiscal e/ou Patrimonial também; os cargos da Diretoria Executiva, mesmo considerando-se as variações estatutárias possíveis são, igualmente, ocupados por voluntários. Uma estimativa poderá dar a dimensão numérica, mesmo que preliminar do que isso pode representar no país: se a Diretoria Executiva eleita de um clube tiver um número mínimo de cinco funções (Presidente, Vice-Presidente, Tesoureiro, Diretor Social e Diretor Administrativo), multiplicando-se pelo número (estimativa conservadora) de 10.000 unidades no país (vide capítulo sobre clubes neste mesmo Atlas), são 50.000 voluntários atuando prioritariamente em ações ligadas, direta ou indiretamente, às atividades físico-esportivas.

Mas quando se fala em voluntariado no esporte existe uma grande lacuna em termos de registro/difusão de dados. Após a experiência de trabalho voluntário no esporte com o EPT, o Brasil não instituiu este campo de atuação, talvez pela própria ausência de grandes eventos esportivos no país durante muitos anos.

Recentemente, o país começou a sediar tais promoções que necessitam da atuação de voluntários para serem viáveis financeiramente e legítimos socialmente. Os Jogos Pan-Americanos que irão se realizar na cidade do Rio de Janeiro em 2007, necessitarão de 15.000 voluntários em diversas áreas de atuação, daí a importância da implantação de programas que supram esta necessidade e que sirva como pilar diante da possibilidade do Brasil vir a ser palco de outros mega-eventos esportivos, como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo de Futebol. Mas o espírito do voluntariado não se esgotará em mega-eventos, pois ele enfim reside na própria essência da prática esportiva.

Fontes Ministério da Educação, Secretaria de Educação Física e Desportos (1989) Esporte Não Formal, Brasília; COB (2003), Rio de Janeiro  Cidade Candidata Jogos Pan-Americanos 2007; Éboli, C., Cresce o interesse das empresas pelas ações de responsabilidade social. Gazeta Mercantil, SP, 29/05/2002; www.voluntarios.com.br (2004); MEC, SEED, SUEPT(1984) Esporte para Todos: Tradição e renovação da Educação Física e dos Esportes no Brasil; Da Costa, L. (1981) Teoria e Prática do Esporte Comunitário e de Massa. Rio de Janeiro, RJ: Palestra Edições Desportivas; International Symposium Lausanne  1999: Volunteers, Global Society and the Olympic Movement, Olympic Museum, Lausanne, 2000; Testemunhos de Mileno Tonisse, Universidade Católica de Brasília, dirigente do ‘Projeto Bosquinho’ de 1978 (2003); Marco Polo Henriques, Revista Medicis n.º9, 2002; Moragas, M., Moreno, A. B. & Paniagua, R. The Evolution of Volunteers at the Olympic Games. In International Symposium Lausanne -1999, Olympic Museum, Lausanne, 2000, pp. 133-154.